Entrevista: Carmod Bastos, prefeito de São Sebastião do Alto

18 / 04 / 2013

Carmod Bastos aposta em desenvolvimento com participação popular (Foto: Ronnie Fialho)

Carmod Bastos aposta em desenvolvimento com participação popular (Foto: Ronnie Fialho)

Neste momento, em que São Sebastião do Alto vive um momento de festa, comemorando, neste dia 17 de abril, seus 122 anos de emancipação, o JORNAL DA REGIÃO (JR) entrevista o prefeito do município, Carmod Bastos (CB), eleito pelo PT em outubro do ano passado e que quebrou uma sequência administrativa que comandava o município há mais de 20 anos.

O prefeito destaca as dificuldades encontradas ao assumir o governo, a relação com a população e a Câmara Municipal e, ainda, algumas de suas ideias em relação aos diversos setores administrativos.

JR – Em qual situação o senhor encontrou a Prefeitura de São Sebastião do Alto quando assumiu o cargo, em 1º de janeiro deste ano?

CB – Alguns equipamentos sucateados e em situação de abandono. Por exemplo: uma van roubada no município do Rio de Janeiro e a outra teve o motor batido na serra de Cachoeiras de Macacu. Realizamos uma limpeza no galpão da Secretaria de Obras, onde havia inúmeros veículos e equipamentos inoperantes e que foram colocados em um terreno para serem leiloados. Até mesmo ferramentas de baixo valor “desapareceram”, como foices e enxadas. Das sete retroescavadeiras que a Prefeitura possui, apenas três encontravam-se operacionais e, ainda sim, pela falta prolongada de manutenção, quebram constantemente.

Na educação, muitas escolas precisam de pintura e correções em instalações elétricas. Na área financeira, devo dizer que encontramos saldo em caixa, e que os restos a pagar estavam devidamente reservados. No entanto, fomos surpreendidos com cortes de luz e telefone, chegando a pagar, em janeiro, R$ 25 mil de juros de contas vencidas em dezembro. Foi preciso, também, alugar táxis e vans para cumprir as viagens necessárias aos pacientes.

Mas, apesar de tudo isso, a pior situação encontrada foi em relação ao orçamento alterado pela Câmara, que baixou de 50% para apenas 5% o percentual de remanejamento e ainda removeu dotações em importantes áreas, como Ação Social e Secretaria de Obras. Este fator vem dificultando imensamente as ações da Prefeitura.

JR – Quais foram as principais dificuldades nestes primeiros meses de governo?

CB – Além das já citadas, a fisiologia da máquina pública demandou uma enorme energia da minha parte e dos secretários. Não é fácil modificar rotinas há muito praticadas e impregnadas em nossos colaboradores. A visão de que precisamos partir para uma nova administração, participativa e com parcimônia, é uma premissa que ainda estamos disseminando. Nesta nova maneira de administrar, em que o povo é ouvido, em que o funcionário é ouvido, requer muita motivação e entusiasmo, pois são inúmeros os pleitos que chegam até nós, e, em sua maioria, com bastante fundamento. É necessário que todos saibam que, apesar da grande expectativa e de nossos esforços, ainda levará algum tempo para respondermos, com eficácia, a todos estes anseios.

JR – Como está a questão da saúde no município?

CB – Apesar da grande fama em torno do Hospital São Sebastião, estamos com um grande número de reclamações em relação ao atendimento, cancelamento/atraso de cirurgias. No início do governo, pessoas nos procuraram, por exemplo, porque estavam desde o ano passado aguardando suas cirurgias, que foram desmarcadas após as eleições. Pessoas têm sido orientadas a procurar a Prefeitura quando o hospital, descumprindo o que reza o contrato de prestação de serviço, não oferece este ou aquele procedimento médico. Certa vez, tive que ir a Campos dos Goytacazes para verificar como estava um paciente transferido do Hospital São Sebastião, equivocadamente, e que necessitava de uma cirurgia bucomaxilofacial, onde, graças a Deus, o paciente estava com a saúde estabilizada, em uma enfermaria comum, e pode ser retransferido para se submeter à cirurgia no Hospital São Sebastião.

Outro caso, de muita infelicidade, foi o óbito de um recém-nascido. Neste caso, nós procuramos a direção do hospital para nos inteirarmos do ocorrido, pois havia muito comentário nas ruas de que houve negligência médica. A Secretaria de Saúde solicitou o prontuário médico da paciente, onde verificaríamos os procedimentos adotados, mas a diretora da Associação Hospitalar se negou a fornecer tal documento. Aproveito a oportunidade desta entrevista para esclarecer à população que, apesar do Hospital São Sebastião pertencer ao município, pois foi construído com dinheiro público, ele é administrado pelo mesmo grupo privado desde sua fundação e que a Prefeitura apenas realiza repasse de recursos mensais. Entendemos, também, que isto não nos isenta da responsabilidade, e que, portanto, esta situação lastimável não pode e não vai permanecer.

Quanto à nossa competência direta, que são os ESF (Estratégia de Saúde da Família), estamos estendendo os atendimentos na zona rural. Conseguimos contratar um novo médico, que está exclusivamente dedicado à atenção básica, conseguindo ótimos resultados. Montamos uma sala de hidratação em Valão do Barro (distrito) com apoio da Secretaria Estadual de Saúde e, para alegria de todos, transferimos o Caps (Centro de Atenção Psicossocial), que se situava no trevo de São Sebastião do Alto para Valão do Barro, um desejo antigo da população.

JR – Os hospitais dos municípios da região recebem ajuda das prefeituras. Quanto a Prefeitura repassa, mensalmente, ao Hospital São Sebastião? E quais os serviços oferecidos à comunidade?

CB – Repassamos uma verba mensal de R$ 150 mil para a Associação Hospitalar, que também recebe recursos do SUS (Sistema Único de Saúde). Em nível de comparação, temos a informação que a Prefeitura de Cantagalo repassa R$ 175 mil para o Hospital de Cantagalo, que atende, aproximadamente, três vezes mais pacientes que o Hospital São Sebastião. Existe uma lista dos serviços que o Hospital São Sebastião deve estar apto a realizar, dentre eles destacamos pequenas cirurgias e internações.

JR – Sua administração introduziu no município a participação popular, com reuniões nas comunidades. O que isso representa para seu governo e quais têm sido os resultados?

CB – Isto mostra a transparência do governo. Com estas reuniões, conseguimos dialogar e alinhar as estratégias do governo com o que realmente faz falta para a população. Como resultado, temos, além da satisfação popular, a realização de obras nas comunidades com a priorização de ações.  Nestes três meses e meio de governo, para se ter uma ideia, já intervimos em 120 poços para irrigação, realizamos aproximadamente 100 serviços de arado de terra para agricultores e estamos realizando coleta de lixo doméstico na zona rural, além das estradas rurais, que estamos recuperando, apesar de se tratar de um serviço paliativo, pois sem a drenagem, bueiros, etc., porque toda vez que chove as estradas são danificadas. Há pouco mais de uma semana, começamos a receber manilhas e espalhá-las pelas estradas. Em breve, construiremos os bueiros.

JR – Como está o relacionamento da administração com os vereadores?

CB – Não é o ideal para o desenvolvimento do município.

JR – E a questão do aumento dos servidores municipais? A Câmara teria votado contra o aumento de 9% e apresentado emenda para 14%. Como está a questão?

CB – Na segunda sessão ordinária realizada pela Casa, se votou os 9%. Creio que viram como seria inviável para o município. Eu gostaria de dar um reajuste maior, mas, pelo limite imposto ao orçamento, não posso, porque estouraria o percentual exigido por lei, de 51,3% com a folha de pessoal.

JR – São Sebastião do Alto é um dos maiores produtores de leite da Cooperativa Agropecuária de Macuco. Recentemente, ocorreu um encontro com a direção da cooperativa no sentido de abrir uma filial em seu município. Como está o assunto?

CB – Fui muito bem recebido pelo presidente Sílvio Marini e o então vice Walter Tardin na ocasião, e pude falar sobre meu desejo de levar uma instalação da Cooperativa de Macuco para São Sebastião do Alto. Quem não gostaria de ter em seu município uma empresa consolidada e bem gerida como a Cooperativa de Macuco! Foi esta a minha intenção, deixar claro que o município está de portas abertas para novos investimentos e parcerias.

JR – Por ser filiado ao PT, partido da presidente Dilma Rousseff, tem conseguido alguma verba federal para realizar obras em São Sebastião do Alto?

CB – Sim. Fomos a Brasília no início do governo e tivemos a boa notícia da presidente Dilma sobre os investimentos do Governo Federal nos municípios menores. Recentemente, conseguimos, entre outras, uma emenda parlamentar de autoria do deputado federal Luiz Sergio, de R$ 850 mil, para aquisição de equipamentos agrícolas. Então, vamos trabalhar para firmar convênios e conseguir verbas para São Sebastião do Alto. Já temos algumas coisas bem encaminhadas.

JR – O Governo do Estado tem viabilizado alguns recursos ou obras para seu município?

CB – Sim. Fomos contemplados com o programa ‘Asfalto na Porta’, onde, no distrito de Valão do Barro, ocorreu o asfaltamento da principal via da localidade. Estamos desenvolvendo, em parceria com a Secretaria de Abastecimento e Pesca e com a Fiperj (Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro), um programa de piscicultura familiar. Fechamos um convênio, através da Secretaria Estadual de Agricultura e da Emater-Rio (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro), para a vinda da patrulha mecanizada para o município, o que irá aliviar bastante a questão das estradas rurais.

JR – Uma mensagem ao povo altense, quando o município comemora seu aniversário?

CB – Estamos no início do governo de um município que completa 122 anos. Tenham fé! Sabemos que temos muito trabalho pela frente para desenvolver o município, mas esta é a nossa missão. Precisamos de todos para honrar aquilo que nossos ancestrais iniciaram há 122 anos. Tenho certeza que os idealizadores da emancipação político-administrativa sonhavam com um município forte e desenvolvido. Bem, está em nossas mãos agora. Que Deus nos abençoe! Parabéns São Sebastião do Alto!

Fonte: Jornal da Região